PARANGOLÉ:
DO FAZER AO OBSERVAR
Neibe Leane da
Silva
Redescobrir
o sal que está na própria pele
Macia...
Redescobrir
o doce no lamber das línguas
Macias...
Redescobrir
o gosto e o sabor da festa
Magia...
(REGINA,
1980)
A sala está na
penumbra, uma voz solicita que os corpos se enrosquem, se toquem por onde não
costuma se tocar, sinta o outro, a sensação do toque no lugar desconhecido.
Fico observando essa cena por uns 15 minutos, mas já latejando em mim a vontade
de tocar, de ser tocada. Entro na roda, depois do convite do mediador.
Tocar o outro, sentir a
respiração, meu corpo pulsava, desejoso do encontro. Não sei precisar o tempo
que ficamos nesse embaraço de corpos, mas quando foi solicitado que nos
separássemos e encontrássemos o outro apenas pelo olhar, meu corpo sentiu
imediatamente a falta do contato físico.
O outro pelo olhar me
convidava, mesmo sem tocar, era como se nossos corpos fossem um só, distantes,
mas próximos. Nossos olhares guiavam
nossos corpos num balé silencioso, mas que pulsava em meu ser. Não havia música
no ambiente, mas eu, no meu universo particular escutava a seguinte música: <https://www.youtube.com/watch?v=1jbgA1Xa1FM>
. Os corpos se encontram num ritmo de frenético a calmo, numa sensualidade e
numa intensidade marcante e reveladora.
Fiquei extasiada com
este momento, percebi nitidamente que meu corpo está adormecido para a prática,
não sei se pela falta de vontade, de tempo, de espaço. Ficaria o dia todo nesse envolver o corpo,
olhar, tocar, sentir, dançar, relacionar, aproximar, afastar, querer o outro.
Nada mais existia, além do meu corpo implícito neste fazer.
Passamos então para a
elaboração do Parangolé, que segundo conversas anteriores durante a disciplina Artes do Corpo e Práticas Pedagógicas, ministrada
pelo Prof. Dr. Narciso Telles no programa de pós-graduação Stricto Sensu Mestrado Profissional em Artes – PROFARTES, pela
Universidade Federal de Uberlândia – UFU, se dá por um relacionar, um criar, um
dançar utilizando um pano, o espaço e os estímulos exteriores.
Para
Hélio Oiticica, no seu texto “Anotações sobre o Parangolé”, ele coloca que a
dança é o que revela a estrutura da obra, dançar com o pano, com o manto, o
participador recebe as influências do ambiente, do devir, da experiência:
“Desde o
primeiro “estandarte”, que funcionava com o ate de carregar (pelo espectador)
ou dançar, já parece visível a relação da dança com o desenvolvimento
estrutural dessas obras da “manifestação da cor no espaço ambiental” (OITICICA,
1986, p. 70)
.
Por
espaço ambiental, Paula Braga esclarece:
Podemos
entender o espaço ambiental é articulado
de Oiticica como um espaço que dissolve fronteiras entre o intelectual e o
mítico, espaço acionado pela estrutura da obra. A dança é o ato em si, pura
imanência, mas capaz de invocar o dionisíaco, o coletivo, um estar no mundo que
é ao mesmo tempo imanente e mágico. O transcendente é substituído pelo
ambiental, espaço de vivências mágicas proporcionadas por estruturas terrenas. (BRAGA,
2013, p. 114)
Saí
da sala com meu tecido, buscando essa dança, esse relacionar com o “mundo de
fora”. Percorremos o campus do Santa Mônica da Universidade Federal de
Uberlândia. Experimentei, usei o tecido como manto, como burca, como capa,
dancei e senti o vento tocar o tecido e faze-lo balançar. Não consegui avançar
mais, sentei, ainda enrolada no meu manto, mas
me detive a observar meus colegas de turma, que pareciam embriagados
pelo tecido, era como se o tecido fosse seus corpos, sua dança, sua fala.
Cores
diversas, que dançavam e se comunicavam com os transeuntes, que as vezes
paravam pra observar, outros continuavam seu caminhar sem “perceber” o
acontecido. Ouvi diversas falas, do querer participar, e participaram, aos que
chamavam aquilo de “palhaçada”.
Nada
importava para mim que estava a observar, ou para os que “Parangoleavam”, do
que a sensação pura de ver na cor, no manto, no tecido o seu desenrolar pelo
espaço. Mário Pedrosa no prefácio do livro “Aspiro ao grande labirinto” nos
diz: “ Arte ambiental é como Oiticica chamou sua arte. Não é com efeito outra
coisa. Nela nada é isolado. O conjunto perceptivo sensorial domina.” (p. 11)
Oiticica
poeticamente compreende, assim como eu compreendi na minha observação que basta
deixar o devir, o agir pelo movimento que o tecido levar: “A obra nasce de
apenas um toque na matéria. (...) O que a transforma em expressão é nada mais
do que um sopro: sopro interior, de plenitude cósmica. Fora disso não há obra.
Basta um toque e nada mais.” (p. 22)
Tenho
estado num momento mais racional, talvez por isso, depois da experimentação
rápida com o tecido, me coloquei a observar, mas entendi que mesmo não estando
implicitamente no processo em si, a mente conduz a gente por lugares diversos e
desconhecidos, e que esse vislumbrar, esse permitir é o que consiste a entrega
para o fazer.
A criação é o
ilimitado; não adianta querer mentalizá-la. A mente tem o poder de aprisionar o
que deve ser espontâneo, o que deve nascer. Desse maneira, porém, só consegue
atrofiar o movimento criativo. Precisa-se da mente, mas com isso não nos
deixamos escravizar por ela; é preciso movimentar o ilimitado, que é nascente,
sempre novo, faz-se. (OITICICA, 1986, p. 22-23)
Portanto, defino que a experiência com o Parangolé é cenestésica, onde vários sentidos são
colocados em prática, são sensações diversas, é também um fazer mesmo quando se
está só a observar. É uma arte para ser sentida, tocada, compartilhada. É um
constante movimentar sem o qual não seria possível a existência do Parangolé.
Referências
BRAGA, Paula. Oiticica. Singularidade
Multiplicidade. São Paulo: Perspectiva, 2013.
OITICICA,
Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
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