segunda-feira, 23 de maio de 2016

PARANGOLÉ COMO POSSIBILIDADE CRIATIVA

PARANGOLÉ: DO FAZER AO OBSERVAR
Neibe Leane da Silva

Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia...
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias...
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia...
(REGINA, 1980)


A sala está na penumbra, uma voz solicita que os corpos se enrosquem, se toquem por onde não costuma se tocar, sinta o outro, a sensação do toque no lugar desconhecido. Fico observando essa cena por uns 15 minutos, mas já latejando em mim a vontade de tocar, de ser tocada. Entro na roda, depois do convite do mediador.
Tocar o outro, sentir a respiração, meu corpo pulsava, desejoso do encontro. Não sei precisar o tempo que ficamos nesse embaraço de corpos, mas quando foi solicitado que nos separássemos e encontrássemos o outro apenas pelo olhar, meu corpo sentiu imediatamente a falta do contato físico.
O outro pelo olhar me convidava, mesmo sem tocar, era como se nossos corpos fossem um só, distantes, mas próximos.  Nossos olhares guiavam nossos corpos num balé silencioso, mas que pulsava em meu ser. Não havia música no ambiente, mas eu, no meu universo particular  escutava a seguinte música: <https://www.youtube.com/watch?v=1jbgA1Xa1FM> . Os corpos se encontram num ritmo de frenético a calmo, numa sensualidade e numa intensidade marcante e reveladora.
Fiquei extasiada com este momento, percebi nitidamente que meu corpo está adormecido para a prática, não sei se pela falta de vontade, de tempo, de espaço.  Ficaria o dia todo nesse envolver o corpo, olhar, tocar, sentir, dançar, relacionar, aproximar, afastar, querer o outro. Nada mais existia, além do meu corpo implícito neste fazer.
Passamos então para a elaboração do Parangolé, que  segundo  conversas anteriores durante a disciplina Artes do Corpo e Práticas Pedagógicas, ministrada pelo Prof. Dr. Narciso Telles no programa de pós-graduação Stricto Sensu Mestrado Profissional em Artes – PROFARTES, pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU, se dá por um relacionar, um criar, um dançar utilizando um pano, o espaço e os estímulos exteriores.
Para Hélio Oiticica, no seu texto “Anotações sobre o Parangolé”, ele coloca que a dança é o que revela a estrutura da obra, dançar com o pano, com o manto, o participador recebe as influências do ambiente, do devir, da experiência:

“Desde o primeiro “estandarte”, que funcionava com o ate de carregar (pelo espectador) ou dançar, já parece visível a relação da dança com o desenvolvimento estrutural dessas obras da “manifestação da cor no espaço ambiental” (OITICICA, 1986, p. 70)

.
Por espaço ambiental, Paula Braga esclarece:

Podemos entender  o espaço ambiental é articulado de Oiticica como um espaço que dissolve fronteiras entre o intelectual e o mítico, espaço acionado pela estrutura da obra. A dança é o ato em si, pura imanência, mas capaz de invocar o dionisíaco, o coletivo, um estar no mundo que é ao mesmo tempo imanente e mágico. O transcendente é substituído pelo ambiental, espaço de vivências mágicas proporcionadas por estruturas terrenas. (BRAGA, 2013, p. 114)
 

            Saí da sala com meu tecido, buscando essa dança, esse relacionar com o “mundo de fora”. Percorremos o campus do Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia. Experimentei, usei o tecido como manto, como burca, como capa, dancei e senti o vento tocar o tecido e faze-lo balançar. Não consegui avançar mais, sentei, ainda enrolada no meu manto, mas  me detive a observar meus colegas de turma, que pareciam embriagados pelo tecido, era como se o tecido fosse seus corpos, sua dança, sua fala.
            Cores diversas, que dançavam e se comunicavam com os transeuntes, que as vezes paravam pra observar, outros continuavam seu caminhar sem “perceber” o acontecido. Ouvi diversas falas, do querer participar, e participaram, aos que chamavam aquilo de “palhaçada”.
            Nada importava para mim que estava a observar, ou para os que “Parangoleavam”, do que a sensação pura de ver na cor, no manto, no tecido o seu desenrolar pelo espaço. Mário Pedrosa no prefácio do livro “Aspiro ao grande labirinto” nos diz: “ Arte ambiental é como Oiticica chamou sua arte. Não é com efeito outra coisa. Nela nada é isolado. O conjunto perceptivo sensorial domina.” (p. 11)
            Oiticica poeticamente compreende, assim como eu compreendi na minha observação que basta deixar o devir, o agir pelo movimento que o tecido levar: “A obra nasce de apenas um toque na matéria. (...) O que a transforma em expressão é nada mais do que um sopro: sopro interior, de plenitude cósmica. Fora disso não há obra. Basta um toque e nada mais.” (p. 22)
            Tenho estado num momento mais racional, talvez por isso, depois da experimentação rápida com o tecido, me coloquei a observar, mas entendi que mesmo não estando implicitamente no processo em si, a mente conduz a gente por lugares diversos e desconhecidos, e que esse vislumbrar, esse permitir é o que consiste a entrega para o fazer.  

A criação é o ilimitado; não adianta querer mentalizá-la. A mente tem o poder de aprisionar o que deve ser espontâneo, o que deve nascer. Desse maneira, porém, só consegue atrofiar o movimento criativo. Precisa-se da mente, mas com isso não nos deixamos escravizar por ela; é preciso movimentar o ilimitado, que é nascente, sempre novo, faz-se. (OITICICA, 1986, p. 22-23)



Portanto, defino que  a experiência com o Parangolé é  cenestésica, onde vários sentidos são colocados em prática, são sensações diversas, é também um fazer mesmo quando se está só a observar. É uma arte para ser sentida, tocada, compartilhada. É um constante movimentar sem o qual não seria possível a existência do Parangolé.




Referências

BRAGA, Paula. Oiticica. Singularidade Multiplicidade. São Paulo: Perspectiva, 2013.

OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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