Ao
buscar as lembranças mais felizes no meu percurso histórico, percebo o fazer
teatral sempre presente, mesmo que velado, em brincadeiras do universo
infantil. Lembro-me com certa riqueza de detalhes do prazer desencadeado pelo
fazer teatral nas brincadeiras com amigos, vizinhos e primos. Entre os
personagens interpretados, alguns possuíam maior destaque, como a dona de casa,
esposa de caminhoneiro, mãe de diversos filhos, Xuxa nas brincadeiras de danças
com as primas...
A
fim de estabelecer um panorama geral da minha relação com o Teatro, trago, a
partir de memórias um pouco desgastadas pelo tempo, parte do meu percurso
escolar e meu contato com o teatro. Experiências que hoje, acredito, foram
determinantes das escolhas que fiz na vida pessoal e profissional. Em diversos
momentos da pesquisa fui atravessada por essas lembranças que de certo modo
explicam meu caminho trilhado até então.
Meus
estudos do ensino Fundamental I e II realizaram-se na escola ESEBA (Escola de
Educação Básica/UFU). As aulas de artes me proporcionaram um contato com quase todas
as linguagens artísticas, com exceção da dança. Pude experimentar o desenho, a
escultura nas aulas de artes visuais da professora Maria[1]; o
canto, o manuseio de diferentes instrumentos musicais nas aulas de música do
professor João[2];
e o teatro nas aulas da professora Célia[3]. A
escola valorizava e possibilitava momentos intensos de aproximação com a arte:
recreio, festivais de música, teatro, dança, exposições.
O
meu primeiro contato com o teatro ocorreu dentro da escola ESEBA, orientada
pela professora Célia. No início o teatro ocorria somente nos horários de aula,
ou seja, em 50 minutos. Mas a ESEBA, naquela ocasião, trabalhava com a divisão
de turmas, cada terço da turma estava com um dos professores já citados, assim
permanecia uma média de 12 alunos por professor.
Posteriormente
trabalhei o teatro no extraturno, que culminou na formação de um grupo que
envolvia professores da escola e alunos interessados. Esse grupo se reunia ao
cair da tarde, três vezes por semana, adentrando o período noturno. A
professora (diretora cênica) oferecia a nós um vasto leque de jogos teatrais
que priorizavam a desinibição, o trabalho em grupo, a disposição para a cena.
Após meses de oficinas, recebemos o texto Morte
e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Lembro que os papeis eram distribuídos de acordo com a
“experiência” de cada ator. Eu, ainda muito nova, com apenas 12 anos, acabei
ficando com o coro[4] das cenas, mas de “gorja” fiz uma das ciganas, uma
personagem forte, e ainda guardo lembranças bem vivas do empenho que tive para
interpretar essa personagem. Foram muitos meses de ensaios. Estreamos o
espetáculo no Teatro Rondon Pacheco, na cidade de Uberlândia. O sentimento de felicidade e realização
invadia o coração dos atores.
Dentro
do ambiente escolar, esse mesmo grupo realizava montagens e apresentações de
esquetes sobre os desafios da adolescência e suas características durante os recreios.
Nesse grupo em especial havia, além de mim, mais umas duas adolescentes. Formado
em sua maioria pelas professoras, esse grupo percebia que a professora Célia sempre
depositava bastante confiança em mim. Era indescritível meu interesse e
disposição para o teatro.
Ainda
vinculada à ESEBA, participei de um outro grupo de adolescentes que possuía
como objetivo conscientizar outros adolescentes sobre seu papel como cidadãos, a
partir da linguagem teatral. Com um esforço incomum, conseguimos montar três
espetáculos, sendo: “Menino brinca de boneca?” – Marcos Ribeiro; “Oriente-se é
tempo de semear” – escrita e produzida pelo grupo; “Depois que papai se foi” (o
assunto central era a AIDS). Todas as encenações eram dirigidas pela professora
Célia, a mesma responsável pelo meu despertar para o campo artístico e teatral.
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