segunda-feira, 16 de maio de 2016

COMO SE DEU O TEATRO NA MINHA VIDA

Gostaria de contar um pouco minha trajetória no teatro no ensino regular:

Ao buscar as lembranças mais felizes no meu percurso histórico, percebo o fazer teatral sempre presente, mesmo que velado, em brincadeiras do universo infantil. Lembro-me com certa riqueza de detalhes do prazer desencadeado pelo fazer teatral nas brincadeiras com amigos, vizinhos e primos. Entre os personagens interpretados, alguns possuíam maior destaque, como a dona de casa, esposa de caminhoneiro, mãe de diversos filhos, Xuxa nas brincadeiras de danças com as primas...
A fim de estabelecer um panorama geral da minha relação com o Teatro, trago, a partir de memórias um pouco desgastadas pelo tempo, parte do meu percurso escolar e meu contato com o teatro. Experiências que hoje, acredito, foram determinantes das escolhas que fiz na vida pessoal e profissional. Em diversos momentos da pesquisa fui atravessada por essas lembranças que de certo modo explicam meu caminho trilhado até então.
Meus estudos do ensino Fundamental I e II realizaram-se na escola ESEBA (Escola de Educação Básica/UFU). As aulas de artes me proporcionaram um contato com quase todas as linguagens artísticas, com exceção da dança. Pude experimentar o desenho, a escultura nas aulas de artes visuais da professora Maria[1]; o canto, o manuseio de diferentes instrumentos musicais nas aulas de música do professor João[2]; e o teatro nas aulas da professora Célia[3]. A escola valorizava e possibilitava momentos intensos de aproximação com a arte: recreio, festivais de música, teatro, dança, exposições.
O meu primeiro contato com o teatro ocorreu dentro da escola ESEBA, orientada pela professora Célia. No início o teatro ocorria somente nos horários de aula, ou seja, em 50 minutos. Mas a ESEBA, naquela ocasião, trabalhava com a divisão de turmas, cada terço da turma estava com um dos professores já citados, assim permanecia uma média de 12 alunos por professor.
Posteriormente trabalhei o teatro no extraturno, que culminou na formação de um grupo que envolvia professores da escola e alunos interessados. Esse grupo se reunia ao cair da tarde, três vezes por semana, adentrando o período noturno. A professora (diretora cênica) oferecia a nós um vasto leque de jogos teatrais que priorizavam a desinibição, o trabalho em grupo, a disposição para a cena. Após meses de oficinas, recebemos o texto Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Lembro que os papeis eram distribuídos de acordo com a “experiência” de cada ator. Eu, ainda muito nova, com apenas 12 anos, acabei ficando com o coro[4] das cenas, mas de “gorja” fiz uma das ciganas, uma personagem forte, e ainda guardo lembranças bem vivas do empenho que tive para interpretar essa personagem. Foram muitos meses de ensaios. Estreamos o espetáculo no Teatro Rondon Pacheco, na cidade de Uberlândia.  O sentimento de felicidade e realização invadia o coração dos atores.
Dentro do ambiente escolar, esse mesmo grupo realizava montagens e apresentações de esquetes sobre os desafios da adolescência e suas características durante os recreios. Nesse grupo em especial havia, além de mim, mais umas duas adolescentes. Formado em sua maioria pelas professoras, esse grupo percebia que a professora Célia sempre depositava bastante confiança em mim. Era indescritível meu interesse e disposição para o teatro.
Ainda vinculada à ESEBA, participei de um outro grupo de adolescentes que possuía como objetivo conscientizar outros adolescentes sobre seu papel como cidadãos, a partir da linguagem teatral. Com um esforço incomum, conseguimos montar três espetáculos, sendo: “Menino brinca de boneca?” – Marcos Ribeiro; “Oriente-se é tempo de semear” – escrita e produzida pelo grupo; “Depois que papai se foi” (o assunto central era a AIDS). Todas as encenações eram dirigidas pela professora Célia, a mesma responsável pelo meu despertar para o campo artístico e teatral.



[1] Nome fictício.
[2] Nome fictício.
[3] Nome fictício.
[4] Termo comum à musica e ao teatro. Desde o teatro grego, coro designa um grupo homogêneo de dançarinos, cantores e narradores, que toma a palavra coletivamente para comentar a ação, à qual são diversamente integrados. (PAVIS, 1947, p. 73).

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